Namoro
Em quase todos os países do mundo celebra-se o dia dos namorados, uma festa bonita, cheia de afeto e de presença de alguém na vida. Dia de desejos, de sonhos. O ser humano é feito para amar e ser amado. Não pode guardar para si o amor que Deus lhe colocou no coração mas deve doá-lo em plenitude para alguém. Em muitos lugares celebra-se a festa dos namorados em fevereiro, quando a Igreja celebra o dia de São Valentim, este mártir do III século que morreu por defender o matrimônio. Segundo a história o imperador Cláudio impedia os soldados de se casar para doarem-se totalmente ao serviço do impero. Valentim, que era sacerdote, teria celebrado clandestinamente muitos matrimônios. Uma vez descoberto pelos amigos do imperador foi martirizado. Segundo outros, esta festa teria uma origem mais prosaica; em fevereiro a primavera está chegando e os passarinhos entram no seu namoro cantando para seduzir a própria fêmea. E a primavera, sinal da juventude, é sempre um momento importante para se iniciar o caminho do namoro que, mais tarde, levará para o matrimônio.
Seja qual for a causa desta festa aqui no Brasil, ou que por motivos comerciais a festa foi deslocada para junho, na véspera do Santo “casamenteiro”, Antônio de Pádua. Em fevereiro teria pouca possibilidade do comércio ter grandes vendas, é tempo de férias, de verão, muitos estão viajando… Como se vê, atrás de cada festa não há somente o lado fictício, religioso e humano, mas sim o dinheiro que determina e inventa festas para vender. Celebrar este dia pode ser visto também debaixo de uma perspectiva mística espiritual. O matrimônio sempre deve ser preparado com muita consciência e preocupação, e deve ser precedido de uma longa preparação. Normalmente se distinguem três passos: namoro, noivado, casamento.
O namoro é o momento do mútuo conhecimento, de galanteio e de tempo em que as pessoas se sentem atraídas pelo outro, mas sem nada de compromisso e de definitivo. É sonho, é canto, é ideal, e não passa disto. Mesmo na vida espiritual São João da Cruz distingue três períodos antes de entrar na profunda comunhão com Deus, nos somos chamados a sermos um; é o sonho da unidade , da harmonia interior, da fusão com alguém que nos seduz. A alma enamorada de Deus vai à procura de Deus, busca e sente a necessidade de encontrá-lo.
Onde é que te escondeste,
Amado, e me deixaste com gemido?
Como o cervo fugiste,
Havendo?me ferido;
Saí, por ti clamando, e eras já ido.(Cântico Espiritual 1)
Esta busca – cântico – leva ao noivado com Deus isto é, a um compromisso sério de querer chegar à plena união com ele através do matrimônio espiritual. A Igreja nos recorda na carta apostólica “Começando o Novo Milênio” esse belíssimo sonho, ideal que é pura realidade que habita em nós e que constitui este imenso desejo de sermos para sempre unidos com Deus…
Assim o enamoramento humano deve caminhar e passar esta mesma fase de busca, conhecimento, promessa de se entregar um dia, um a outro através do matrimônio. É um ideal que deve amadurecer dentro do ser humano. Hoje devemos redescobrir a espiritualidade do namoro. Fala-se muito de namoro “santo”; o que quer dizer esta frase? Será que no namoro é permitida, como se pensa, todo tipo de experiência, toda manifestação de afeto? Hoje para muitas pessoas não tem nenhuma diferença entre namoro e noivado; noivado e matrimônio é a mesma coisa. Esta confusão leva a uma relativização dos verdadeiros valores da vida. Devemos compreender que a liberdade verdadeira do amor é saber respeitar o outro. Amar é Ter a capacidade de vencer os instintos que nos prejudicam e sermos donos de nós mesmos.
A igreja, quando chama a atenção que o ato sexual, plenitude da unidade onde “os dois serão uma só carne”, só é permitido no matrimônio onde tem a garantia do amor e sacramentalidade de amor, não faz isso porque é “quadrada, retrógrada, não quer caminhar com os tempos modernos e não quer compreender as exigências da juventude”. De forma alguma. A Igreja é consciente da responsabilidade que deve ser criada no coração de todo jovem de que o amor pleno exige uma seriedade e não pode ser o momento de uma chama de paixão e depois… com o vento tudo se apaga.
Devemos todos portanto, refletir e orientar os jovens, pais, educadores, sacerdotes, agentes da pastoral familiar, para que seja bem entendido e vivido o namoro, primeiro passo para, depois de terem-se conhecido reciprocamente, passar ao noivado e mais tarde ao matrimônio.
Um livro que aconselharia a ler a todos os noivos é o Cântico dos cânticos, onde se canta a alegria da procura do outro, é o sinal mais belo do despertar do amor humano. Todos na vida, pelo menos uma vez, fomos enamorados ou de alguém ou do mesmo Deus que nos seduziu e nos chamou a si. Não é proibido para ninguém se enamorar e se apaixonar, o que é proibido é deixar-se arrastar pela força das paixões. E para quem escolhe o celibato também não é proibido se enamorar. O que é proibido é namorar. Devemos todos nós ter consciência do que queremos na vida, qual é o nosso ideal. Que neste dia o amor possa ser como no Cântico, cantado com alegria e beleza…
“Ei-lo que vem, saltitando pelos montes… e os meus olhos dormiam mas o meu coração velava”. O enamorar nos chama a sair do próprio eu egoísta e olhar ao nosso redor e ver que somos chamados a não pensar mais em nós mesmos, na nossa felicidade mas pensar nos outros e na felicidade dos outros. Namoro “santo” é viver o amor não como forte tempestade que tudo destrói mas como brisa leve que encanta, refresca e faz bem ao coração. Ter medo do amor é ter medo de Deus, de si mesmo e dos outros, e isto é pecado. O amor é olhar nos olhos dos outros e de Deus com alegria e vida. Deus não só está enamorado de nós mas nos ama com amor profundo e verdadeiro. E nós, enamorados de Deus, o buscamos não somente em nós mas também nos outros. Do namoro “santo” surge um “noivado santo” e mais tarde um matrimônio santo.
Autor: Frei Patrício Sciadini, ocd
Fonte: www.asj.org.br